Os Cavaleiros do Apocalipse
- Rui Terrinha

- 9 de jan.
- 3 min de leitura

Escrevi este artigo porque tenho sentido algumas perguntas a repetirem-se. O que é que realmente nos está a acontecer enquanto pessoas no meio de tanta instabilidade externa? Será que estamos apenas cansados ou estamos a viver em modo de sobrevivência há demasiado tempo? Até que ponto a ansiedade que sentimos é individual ou uma resposta lógica ao mundo que nos rodeia?
Vivemos rodeados de crises globais mas raramente paramos para perceber como elas entram no corpo. O que faz tensão constante ao sistema nervoso? O que acontece quando o estado de alerta deixa de ser exceção e passa a ser o normal?Quantas decisões tomamos a partir do medo sem nos apercebermos?
Outra questão que me acompanha é esta. Porque é que tantas pessoas sentem que algo nelas morreu nos últimos anos mesmo sem terem passado por um evento concreto? Será possível que estejamos a atravessar pequenos colapsos internos colectivos? E se esses colapsos não forem sinal de falha mas de transição?
Foi a partir destas perguntas que o símbolo dos Cavaleiros do Apocalipse começou a fazer sentido para mim. Não como imagem de destruição mas como linguagem para falar de processos humanos. Cada cavaleiro representa uma fase que todos atravessamos em diferentes momentos da vida: Controlo; Conflito; Escassez; Perda.
Este artigo nasce da necessidade de ligar estas perguntas ao que vemos no mundo e ao que sentimos por dentro. Ao longo do texto estas questões vão sendo desenvolvidas não como respostas fechadas mas como linhas de reflexão. Porque talvez o mais importante neste momento não seja resolver tudo. Seja compreender melhor o que estamos a atravessar.
Do mundo externo ao impacto interno
Os Cavaleiros do Apocalipse não descrevem um fim definitivo. Descrevem processos. Quando olhamos para o panorama geopolítico actual percebemos que estes padrões estão activos em vários níveis.
O primeiro cavaleiro fala de conquista e controlo. No mundo manifesta-se na disputa por poder económico, tecnológico e ideológico. Internamente surge como necessidade constante de controlar tudo. A pessoa vive em vigilância permanente porque confunde controlo com segurança.
Este estado prolongado activa o segundo cavaleiro. O conflito. Fora vemos polarização social, guerras abertas e guerras silenciosas. Dentro surge a luta consigo próprio. Pensamentos repetitivos. Autocrítica agressiva. Sensação de nunca estar a fazer o suficiente.
Quando o conflito se torna crónico aparece o terceiro cavaleiro. A fome. No plano colectivo vemos escassez inflação desigualdade. No plano interno instala-se o vazio. Falta de prazer. Falta de energia emocional. A vida continua mas sem alimento interno real.
Se nada muda chegamos ao quarto cavaleiro. A morte. No mundo representa o colapso de sistemas antigos. Dentro da pessoa surge como burnout, depressão desligamento emocional ou desistência silenciosa.
As fases internas de superação
Estes cavaleiros não são inimigos a eliminar. São fases que precisam de ser reconhecidas e atravessadas.
A superação começa quando a pessoa percebe onde está a tentar controlar por medo. Segue-se o reconhecimento do conflito interno em vez da sua negação. Depois torna-se necessário identificar o que está realmente em falta e não tapar esse vazio com distrações. Por fim surge a aceitação de que algo precisa morrer para que uma nova organização interna possa nascer.
Sem este percurso a pessoa fica presa num modo de sobrevivência contínua que esgota o corpo e a mente.
A importância das terapias neste contexto
É aqui que as terapias ganham um papel essencial. Num mundo instável o sistema nervoso precisa de espaços de regulação. Não para fugir da realidade mas para a conseguir atravessar sem colapsar.
O trabalho terapêutico cria condições para baixar o estado de guerra interno. Ajuda a distinguir perigo real de medo aprendido. Dá espaço para sentir escassez emocional sem a negar. E permite atravessar pequenas mortes internas com suporte e consciência.
Num contexto de crise permanente a terapia deixa de ser um luxo. Torna-se uma ferramenta de adaptação.
Em termos práticos a terapia ajuda a
Reduzir o estado de alerta crónico do sistema nervoso
Restaurar sensação de segurança no corpo
Clarificar conflitos internos sem julgamento
Acompanhar fases de perda e mudança
Desenvolver flexibilidade emocional em vez de rigidez
Os Cavaleiros do Apocalipse continuam actuais porque descrevem ciclos inevitáveis de crise e reorganização. O problema não está em atravessar estes ciclos. Está em fazê-lo sozinho e sem consciência.
Num mundo que pressiona constantemente o corpo e a mente, cuidar do espaço interno torna-se um acto de responsabilidade. Não para evitar o caos externo mas para não ser governado por ele.





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