Disfunção da Articulação Temporomandibular
- Rui Terrinha

- há 2 dias
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E se a sua mandíbula lhe estivesse a dar sinais muito antes de surgir qualquer dor? Nem todas as pessoas com tensão na articulação temporomandibular apresentam sintomas evidentes. No entanto, através da kinesiologia, é frequente observar alterações funcionais como tensão mandibular, apertar involuntário dos dentes, fadiga muscular, alterações posturais ou dificuldades de adaptação ao stress. Esta perspetiva convida-nos a explorar não apenas os aspetos físicos da ATM, mas também fatores como o stress, os conflitos emocionais e alguns dos padrões descritos nas chamadas 5 feridas emocionais.
O que é a Disfunção Temporomandibular?
A articulação temporomandibular, conhecida como ATM, é uma das estruturas mais utilizadas do corpo humano. Localizada entre a mandíbula e o osso temporal do crânio, participa na mastigação, na fala, na respiração, na deglutição e nas expressões faciais. É uma articulação complexa que depende da coordenação entre músculos, ligamentos, estruturas articulares e sistema nervoso para funcionar de forma eficiente.
Quando essa coordenação é alterada ou a articulação perde capacidade de adaptação, pode surgir aquilo que habitualmente designamos por disfunção temporomandibular (DTM). De acordo com o National Institute of Dental and Craniofacial Research (NIDCR), este termo descreve um conjunto de condições que afetam a articulação temporomandibular e os músculos da mastigação, podendo provocar dor, limitação dos movimentos da mandíbula e outros sintomas associados. Em muitos casos, a pessoa sente que a mandíbula está constantemente "presa", cansada ou sob pressão.
Durante muito tempo, a disfunção temporomandibular foi interpretada sobretudo numa perspetiva mecânica, centrada apenas na articulação ou na oclusão dentária. Atualmente, sabemos que a situação costuma ser mais complexa. A mandíbula não funciona isolada do resto do corpo nem do estado do sistema nervoso. Fatores como o stress, a qualidade do sono, os hábitos de apertar os dentes, a tensão muscular e a capacidade de adaptação do organismo podem influenciar significativamente a forma como os sintomas surgem e se mantêm ao longo do tempo.
A relação entre tensão emocional e mandíbula
Na prática clínica, é frequente observar pessoas que vivem longos períodos em esforço constante, sob pressão emocional, stress acumulado ou fadiga persistente. Muitas dessas pessoas apertam os dentes sem se aperceberem, mantêm tensão facial durante o dia inteiro ou passam a noite a ranger os dentes durante o sono. O corpo adapta-se durante algum tempo, mas essa adaptação tem um custo.
A mandíbula acaba muitas vezes por funcionar como uma zona onde essa tensão se manifesta.
Isto não significa que "a dor seja emocional". Essa ideia simplifica demasiado uma realidade muito mais complexa. A dor é multifatorial e envolve componentes físicas, neurológicas, emocionais e comportamentais.
Esta perspetiva é sustentada pela investigação científica. Uma revisão recente sobre os fatores psicológicos associados às disfunções temporomandibulares, disponível na PubMed Central, identificou uma relação significativa entre stress, ansiedade, depressão e a experiência de dor associada à ATM.
Ainda assim, ignorar a influência do estado emocional no corpo também não corresponde ao que observamos diariamente.
O sistema nervoso influencia constantemente o tónus muscular, a respiração, a perceção de ameaça e a capacidade de recuperação do organismo. Quando alguém vive durante muito tempo em estado de alerta, o corpo tende a perder capacidade de relaxamento.
A musculatura facial mantém-se constantemente ativa.
A mandíbula deixa de ter verdadeiros momentos de repouso.
Há pessoas que só percebem o nível de tensão em que vivem quando aparecem os sintomas físicos. O corpo vai compensando em silêncio até deixar de conseguir fazê-lo da mesma forma.
A visão da osteopatia
É precisamente aqui que uma abordagem mais integrada pode fazer sentido.
Na osteopatia, a ATM é normalmente observada em relação com outras estruturas e funções do corpo. A mobilidade cervical, a postura, a respiração, a musculatura facial e o estado geral do sistema nervoso podem influenciar a forma como a mandíbula funciona e tolera carga.
O objetivo não é procurar soluções rápidas nem prometer “alinhar” a articulação de forma milagrosa. O trabalho passa mais por ajudar o corpo a recuperar capacidade de adaptação, reduzir excesso de tensão muscular e melhorar a relação entre movimento, respiração e regulação do sistema nervoso.
Em alguns casos, a abordagem pode beneficiar também de acompanhamento multidisciplinar, especialmente quando existem alterações dentárias importantes, dor persistente ou elevados níveis de stress e ansiedade.
O corpo expressa aquilo que acumula
Talvez uma das coisas mais importantes na ATM seja perceber que a mandíbula não reage apenas ao que mastigamos. Muitas vezes reage também à forma como vivemos.
O corpo expressa tensão de várias maneiras.
Em algumas pessoas surge nos ombros.
Noutras na lombar.
Noutras no sistema digestivo.
Em muitas, manifesta-se na mandíbula.
Nem sempre por fragilidade. Muitas vezes por excesso de adaptação durante demasiado tempo.
Uma visão mais humana da dor
Por isso, olhar para a ATM apenas como uma articulação pode ser insuficiente. Em muitos casos, é mais útil compreendê-la como parte de um organismo inteiro, influenciado pela história da pessoa, pelos seus hábitos, pelo contexto emocional e pela forma como o sistema nervoso tem conseguido gerir carga ao longo do tempo.
A dor nem sempre é apenas um sinal de lesão. Às vezes também pode ser um sinal de saturação.




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